
Quais são os seus non-negotiables?
Há uma pergunta que faço muitas vezes em entrevistas:
“Quais são os seus non-negotiables?”
O que é que tem mesmo de existir para aceitar e permanecer num emprego?
E o que é que, se existir, faz com que não queira aquele trabalho, mesmo que o salário seja interessante, a empresa tenha um nome bonito no LinkedIn e o pacote de benefícios inclua fruta fresca à quarta-feira?
Parece uma pergunta simples.
Raramente obtenho uma resposta realmente pensada.
Há uma frase muito portuguesa que diz que podemos não saber aquilo que queremos, mas sabemos muito bem aquilo que não queremos.
Não tenho a certeza.
Na vida profissional, encontro imensa gente que não sabe uma coisa nem outra.
Sabe que quer “um bom ambiente”.
Quer “crescer”.
Quer “reconhecimento”.
Quer “equilíbrio”.
Quer “uma boa liderança”.
Ótimo.
Isso quer dizer rigorosamente o quê?
“QUERO UM BOM AMBIENTE” NÃO É UM NON-NEGOTIABLE
Quando faço esta pergunta, muitas pessoas tentam encontrar a resposta certa para a entrevista.
E eu percebo.
Uma entrevista é uma situação de avaliação. Queremos causar boa impressão. Não queremos parecer exigentes, difíceis ou pouco flexíveis.
Então aparece a resposta politicamente correta:
“Para mim é muito importante haver respeito.”
Espero bem que sim.
“Gosto de trabalhar numa equipa colaborativa.”
Imagino que a alternativa “prefiro trabalhar rodeado de pessoas que me sabotem” tenha poucos adeptos.
“Valorizo uma empresa que permita crescer.”
Também não esclarece grande coisa.
Um non-negotiable tem de ser suficientemente concreto para o ajudar a tomar uma decisão.
Por exemplo:
Não aceito uma função que exija disponibilidade habitual à noite.
Preciso de dois dias de trabalho remoto por semana.
Não quero voltar a trabalhar numa organização com uma cultura comercial agressiva.
Não aceito uma função em que tenha de viajar todas as semanas.
Quero autonomia para organizar o meu trabalho.
Preciso de trabalhar numa empresa onde possa discordar da minha chefia sem ser penalizado por isso.
Não quero liderar pessoas.
Quero liderar pessoas.
Não aceito um salário abaixo de determinado valor.
Preciso de previsibilidade de horários porque tenho responsabilidades familiares.
Não quero uma cultura em que estar disponível permanentemente seja confundido com compromisso.
Agora já conseguimos conversar.
Porque há consequências associadas à resposta.
UM NON-NEGOTIABLE TEM UM PREÇO
Esta é a parte que às vezes não queremos ouvir.
Se é realmente inegociável, tem de estar preparado para perder uma oportunidade por causa dele.
Caso contrário, provavelmente não é um non-negotiable.
É uma preferência.
E não há mal nenhum nisso.
Eu posso preferir trabalhar remotamente, mas aceitar uma excelente oportunidade presencial.
Posso preferir uma multinacional, mas aceitar uma PME.
Posso gostar de ter seguro de saúde, mas não rejeitar um emprego por não o ter.
Preferências são coisas que pesam na decisão.
Non-negotiables são condições que podem determinar a decisão.
Misturar tudo cria listas impossíveis.
E depois acontece uma coisa maravilhosa: queremos salário elevado, progressão rápida, flexibilidade total, trabalho remoto, uma equipa extraordinária, estabilidade absoluta, autonomia completa, uma chefia sempre disponível mas nunca controladora, desafios interessantes mas níveis de stress reduzidos e, já agora, que o escritório fique a sete minutos de casa.
Não estamos a definir critérios.
Estamos a encomendar um unicórnio.
Escolher implica hierarquizar.
NÃO TENHA MEDO DE SABER O QUE NÃO ACEITA
Há candidatos que sabem perfeitamente aquilo que não querem, mas têm medo de o dizer.
Porque precisam do emprego.
Porque receiam ser eliminados.
Porque aprenderam que numa entrevista o candidato deve demonstrar disponibilidade, entusiasmo e flexibilidade praticamente infinitos.
Então aceitam.
Aceitam o horário.
Aceitam a deslocação.
Aceitam uma função cujo conteúdo não lhes interessa particularmente.
Aceitam uma chefia que já durante a entrevista lhes deu vários sinais de incompatibilidade.
Aceitam uma cultura que perceberam perfeitamente que não lhes serve.
Três meses depois estão infelizes.
Seis meses depois odeiam a empresa.
Um ano depois contam a toda a gente que o empregador é horrível.
Pode ser.
Há empregadores horríveis.
Há culturas profundamente disfuncionais e lideranças que degradam pessoas.
Mas há também outra responsabilidade que me interessa discutir:
a nossa.
Nem tudo pode ser colocado do lado de quem emprega.
Há momentos em que vimos.
Perguntámos.
Percebemos.
E aceitámos na mesma.
NÃO SEJA CARNEIRADA
Digo isto muitas vezes de uma maneira pouco sofisticada:
não podemos ser todos uma cambada de carneirada.
Aceitar qualquer emprego, em quaisquer condições, sem fazer perguntas, sem conhecer os nossos limites e sem tentar perceber onde estamos a entrar.
E depois passar os meses seguintes a queixarmo-nos exatamente daquilo que nunca tivemos coragem de perguntar antes de assinar.
Uma entrevista não serve apenas para a empresa decidir se o quer contratar.
Serve para decidir se quer ser contratado por aquela empresa.
Isto altera completamente a forma de estar numa entrevista.
Pergunte.
Como é avaliado o desempenho?
Porque saiu a pessoa que ocupava anteriormente esta função?
Quantas pessoas saíram desta equipa no último ano?
Como é um dia normal?
O que acontece quando alguém discorda da chefia?
Qual é a expectativa real de disponibilidade fora do horário?
Como são tomadas decisões?
Que autonomia terá?
Como é tratado um erro?
O que aconteceu à última pessoa desta equipa que teve um desempenho extraordinário?
E, sobretudo, conheça a pessoa que vai liderá-lo.
SAIBA QUEM CONSEGUE TER COMO CHEFIA
Este é um dos pontos mais ignorados numa procura de emprego.
As pessoas analisam a função.
Analisam o salário.
Analisam a marca.
Analisam benefícios.
Às vezes analisam até a distância entre casa e o escritório ao minuto.
E dedicam dez minutos a perceber quem será a pessoa com maior capacidade para afetar a sua experiência profissional quotidiana.
A chefia.
Não lhe pergunto qual é o seu “líder ideal”.
Por favor, não entre na liga do perfeito.
Não existe.
A sua futura chefia terá defeitos.
Vai tomar decisões com que não concorda.
Pode ter dias péssimos.
Pode comunicar pior do que gostaria.
Pode não lhe dar feedback exatamente na frequência que prefere.
Pode não ter a personalidade que escolheria para seu melhor amigo.
Ainda bem que não está a contratar um melhor amigo.
A pergunta é diferente:
com que tipo de pessoa consegue trabalhar bem?
E com que tipo de pessoa sabe, pela experiência que já tem, que provavelmente não consegue?
PERSONALIDADE TAMBÉM É COMPATIBILIDADE PROFISSIONAL
Há pessoas que trabalham muito bem com líderes extremamente diretos.
Outras bloqueiam.
Há quem precise de autonomia quase total.
Há quem funcione melhor com acompanhamento frequente e prioridades muito claras.
Há pessoas que gostam de uma chefia rápida, exigente e orientada para execução.
Outras precisam de mais espaço para discussão e reflexão.
Há quem tolere bastante bem uma personalidade emocionalmente mais distante desde que exista justiça e clareza.
Há quem precise de uma relação profissional mais próxima.
Nada disto significa que qualquer comportamento seja aceitável.
Humilhação não é “um estilo de liderança”.
Assédio não é “uma personalidade forte”.
Desrespeito não é “exigência”.
Arbitrariedade não é “ser muito orientado para resultados”.
Não estou a falar de tolerar abuso.
Estou a falar de compatibilidade entre seres humanos imperfeitos.
E conhecermo-nos suficientemente bem para perceber a diferença.
NÃO PROCURE A CHEFIA PERFEITA
Vejo também o movimento contrário.
Pessoas que, depois de uma má experiência, constroem uma lista tão extensa de requisitos que nenhum ser humano a consegue cumprir.
Querem uma chefia exigente, mas que nunca pressione.
Próxima, mas que não interfira.
Disponível, mas que não marque demasiadas reuniões.
Que dê autonomia, mas esteja imediatamente presente sempre que existe um problema.
Que dê feedback, mas sempre da maneira exata como a pessoa prefere recebê-lo.
Que tome decisões, mas nunca uma decisão de que discordemos.
Isso não é um non-negotiable.
É uma fantasia.
A maturidade profissional também consiste em perceber aquilo que é uma diferença tolerável, aquilo que podemos negociar e aquilo que realmente nos degrada.
Não precisa de uma chefia perfeita.
Precisa de uma chefia suficientemente compatível consigo e suficientemente competente e íntegra para que consiga trabalhar sem passar os dias a proteger-se dela.
É bastante diferente.
FAÇA A LISTA ANTES DE PRECISAR DELA
Há um exercício que recomendo fazer antes da próxima entrevista.
Pegue nas suas últimas experiências profissionais.
Nas boas e nas más.
E não escreva apenas aquilo de que gostou.
Pergunte porquê.
O que havia naquela chefia que fazia com que trabalhasse tão bem?
O que acontecia naquele ambiente que lhe retirava energia?
Que condições lhe permitiam produzir melhor?
O que começou por parecer pequeno e acabou por se tornar insuportável?
De que coisas se queixou repetidamente?
Que condições aceitou e prometeu a si próprio nunca mais aceitar?
Depois separe tudo em três grupos:
Preciso.
Prefiro.
Não aceito.
É muito mais útil do que uma lista de vinte características do emprego perfeito.
E faça outra coisa: obrigue-se a escolher.
Se tudo for inegociável, nada é.
SABER O QUE QUER TAMBÉM É RESPONSABILIDADE
Uma organização tem responsabilidades sobre a forma como trabalha.
Uma liderança tem responsabilidades sobre o poder que exerce.
Um empregador tem obrigações legais, éticas e humanas que não desaparecem porque o trabalhador “aceitou”.
Mas nós também temos responsabilidade sobre as decisões que tomamos.
Não controlamos o mercado.
Não temos todos o mesmo poder negocial.
E há pessoas que, por necessidade económica, terão de aceitar temporariamente condições que não escolheriam. Ignorar isto seria transformar privilégio em conselho de carreira.
Mas sempre que existe margem de escolha, convém usá-la.
E a escolha começa muito antes de receber uma proposta.
Começa por saber aquilo que procura.
Aquilo que tolera.
Aquilo que prefere.
E aquilo que já decidiu que não volta a negociar consigo próprio.
Por isso, na próxima entrevista, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Será que eles vão gostar de mim?”
Talvez seja:
“Consigo viver bem com aquilo que este trabalho me vai pedir?”
Porque um emprego ocupa demasiadas horas da nossa vida para entrarmos nele como carneirada e começarmos a pensar apenas depois de assinar.
Saiba os seus non-negotiables.
Não para exigir o emprego perfeito.
Mas para deixar de aceitar conscientemente aquilo de que amanhã vai dizer que nunca quis.


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