
Quando a pessoa se esquece, e concorre 2 ou mais vezes à mesma vaga
Ontem publiquei um post sobre receber três CVs diferentes da mesma pessoa. Três versões “personalizadas”, adaptadas à mesma vaga.
A quantidade de pessoas que achou isto normal explicou-me muito sobre o estado actual do mercado. As pessoas chamam à mentira: “criatividade”. E gostam.
Há uma geração inteira de candidatos a ser aconselhada por pessoas que nunca contrataram ninguém.
Pessoas que nunca geriram processos de recrutamento. Nunca utilizaram um ATS para lá de saberem o significado da sigla. Nunca fizeram sourcing. Nunca usaram LinkedIn Recruiter. Nunca tiveram de justificar uma contratação falhada. Nunca tiveram de decidir entre dois candidatos igualmente competentes.
Mas têm opiniões. Muitas opiniões.
E sobretudo têm respostas para tudo.
“Personaliza o CV.”
“Os ATS não lêem isto.”
“Os ATS adoram aquilo.”
“Usa design.”
“Não uses design.”
“Coloca fotografia.”
“Não coloques fotografia.”
O problema não é existirem opiniões diferentes. O problema é quando a especulação se apresenta como conhecimento e quando candidatos vulneráveis pagam por ela.
Porque quem procura trabalho quer acreditar. Quer uma vantagem. Quer uma explicação simples para um processo complexo.
E é precisamente aí que prospera a indústria dos chamados “especialistas de carreira”.
Antes de seguir alguém, faça uma pergunta simples: esta pessoa vive os processos sobre os quais fala ou vive de falar sobre eles?
Nem sempre são a mesma coisa. Aliás, muitas vezes não são.
Olhem para os percursos. Para a experiência. Para as funções exercidas. Para a responsabilidade assumida. Para o impacto criado.
Há ditos gestores de carreira nesta rede que são consultores imobiliários, gestores de condomínios, engenheiros químicos, gestores de marketing. Tudo a favor das profissões, nada sabem de gerir pessoas, recrutar pessoas diariamente, headhunting e contratar.
Porque há uma diferença enorme entre construir uma carreira e construir um negócio a vender conselhos sobre carreiras.
Foi precisamente por isso que nasceu O Lado de Lá.
Não para ensinar truques, as “dicas” que se fala. Não para alimentar mitos. Não para vender a ilusão de que um CV optimizado resolve problemas de posicionamento, competência ou credibilidade.
Mas para explicar o que realmente acontece quando uma candidatura entra num processo.
Porque contratar pessoas não é um exercício teórico. É uma responsabilidade com consequências humanas, operacionais e financeiras.
E quem nunca esteve do lado da decisão dificilmente consegue explicar o peso dessa responsabilidade.
Por isso, antes de aceitar conselhos sobre carreira, olhe para quem os dá.
A credibilidade não se proclama. Demonstra-se em experiência e não é “personalizável”. Ou se tem, ou não se tem.

