O doomjobbing está a destruir carreiras. E a ilusão de que fazer mais é o mesmo que avançar está a alimentá-lo.
Há um novo termo a ganhar espaço nas conversas sobre carreira: doomjobbing.
Descreve quem vive num ciclo contínuo de procura de emprego, envia candidaturas em massa, consulta plataformas várias vezes por dia, adapta pouco ou nada o currículo e, mesmo acreditando que dificilmente obterá um resultado diferente, continua a repetir exatamente o mesmo comportamento.
O conceito é útil. Mas corre o risco de ser profundamente injusto.
Porque, quando reduzimos o fenómeno a uma questão de comportamento individual, ignoramos aquilo que verdadeiramente o alimenta.
O doomjobbing não nasce da falta de disciplina. Nasce, muitas vezes, do medo.
Do medo de não conseguir pagar as contas. Do medo de perder a identidade profissional. Do medo de sentir que toda uma carreira deixou de ter valor. Do medo de que o silêncio do mercado seja, afinal, uma sentença definitiva sobre quem somos.
E é precisamente aqui que começa o problema.
Durante anos dissemos às pessoas que o segredo era simples: “quanto mais candidaturas enviar, maiores serão as probabilidades de conseguir emprego.”
Hoje essa ideia deixou de corresponder à realidade.
Vivemos um mercado onde uma única vaga pode receber centenas ou milhares de candidaturas. Onde os processos de recrutamento se prolongam durante semanas ou meses. Onde muitas empresas continuam sem responder aos candidatos. Onde algoritmos filtram currículos antes de qualquer pessoa os ler. Onde funções mudam mais depressa do que os títulos profissionais conseguem acompanhar.
Perante este cenário, a reação humana é previsível.
Se não resulta com cinquenta candidaturas, envio cem. Se cem não chegam, envio duzentas. E, sem dar conta, o objetivo deixa de ser encontrar o lugar certo. Passa a ser simplesmente continuar a candidatar-se.
O movimento cria uma ilusão de progresso. Mas movimento não é estratégia. E atividade não significa aproximação ao objetivo.
Vejo profissionais extremamente competentes presos neste ciclo durante meses.
Não lhes falta experiência. Não lhes falta conhecimento. Não lhes falta capacidade.
Falta-lhes tradução.
Porque aquilo que construíram ao longo de quinze ou vinte anos faz sentido para eles, mas deixou de fazer sentido para quem está do outro lado do processo de recrutamento.
Não porque tenha perdido valor.
Mas porque deixou de ser compreendido.
É aqui que muitas transições de carreira falham.
Não falham porque a pessoa não consiga desempenhar uma nova função.
Falham porque continua a apresentar-se como alguém que pertence exclusivamente ao passado profissional que pretende deixar.
O mercado não recruta potencial abstrato.
Recruta risco percebido.
Sempre que um recrutador olha para um perfil em transição, coloca, consciente ou inconscientemente, uma pergunta muito simples:
“Porque devo acreditar que esta pessoa será bem-sucedida num contexto diferente daquele onde sempre trabalhou?”
Se a candidatura não responde a esta pergunta, dificilmente haverá entrevista.
E não é o número de candidaturas que resolve esse problema.
É a qualidade do posicionamento.
Há outro aspeto de que se fala pouco.
Também as organizações contribuem para este ciclo.
Quando publicam descrições de funções irreais.
Quando procuram o candidato perfeito para requisitos impossíveis.
Quando deixam processos em aberto durante meses.
Quando nunca comunicam um resultado.
Quando tratam centenas de pessoas como se o silêncio fosse uma resposta aceitável.
Cada uma destas decisões aumenta a ansiedade coletiva do mercado.
Cada uma reforça a sensação de que é preciso candidatar-se a tudo, porque nunca se sabe onde existirá realmente uma oportunidade.
O doomjobbing não é apenas um comportamento individual.
É também um reflexo da forma como desenhámos os processos de recrutamento.
E isso obriga-nos a uma responsabilidade partilhada.
Enquanto profissionais, precisamos de abandonar a lógica da quantidade.
Enquanto organizações, precisamos de abandonar a lógica da opacidade.
Porque nenhuma destas estratégias produz confiança.
E um mercado sem confiança torna-se um mercado onde todos trabalham mais e quase ninguém obtém melhores resultados.
Quando acompanho profissionais em processos de transição, raramente começo pelo currículo.
Começo por uma pergunta muito mais desconfortável.
“Que problema resolve hoje que o mercado ainda não consegue ver?”
A resposta nunca aparece de imediato.
Porque passámos demasiado tempo a descrever funções e demasiado pouco tempo a explicar valor.
Uma mudança de carreira não acontece quando alteramos o título no LinkedIn.
Acontece quando conseguimos construir uma narrativa suficientemente sólida para que outra pessoa compreenda porque faz sentido apostar em nós.
Isso exige método. Exige reflexão. Exige conhecer competências transferíveis. Exige compreender mercados. Exige estudar funções. Exige abandonar a ideia de que basta atualizar o CV.
Um currículo é apenas a fotografia de uma estratégia.
Nunca poderá substituir a estratégia. É por isso que tantas pessoas investem semanas a reformular documentos sem alterar os resultados.
Mudaram o formato. Mas não mudaram a mensagem.
O mercado continua a receber exatamente a mesma história. E responde exatamente da mesma forma.
Talvez a pergunta já não deva ser: “Quantas candidaturas enviei esta semana?”
Talvez a pergunta deva passar a ser: “Quantas oportunidades compreenderam verdadeiramente o valor que posso trazer?”
A diferença entre estas duas perguntas parece pequena. Na realidade, muda completamente a forma como gerimos uma carreira. Porque deixa de medir esforço. E passa a medir impacto.
Num tempo em que a ansiedade incentiva velocidade, talvez a decisão mais inteligente seja precisamente desacelerar.
Pensar antes de enviar. Escolher antes de responder. Construir antes de comunicar.
A carreira nunca foi uma corrida ao maior número de candidaturas. Sempre foi um exercício de clareza.
E a clareza continua a ser uma das competências mais raras — e mais valiosas — no mercado de trabalho atual.
No próximo dia 23 de julho, às 21h30, vou dedicar uma aula aberta gratuita da CV.Experts – Especialistas em RH® precisamente a este desafio.
Reposicionar Carreira: Estratégia para Mudança de Função ou Setor não é uma sessão sobre como fazer um currículo mais bonito. É uma aula sobre como transformar experiência em valor percebido.
Vamos trabalhar competências transferíveis, posicionamento, narrativa profissional e estratégia de transição. Porque mudar de função ou de setor não começa quando aparece uma vaga.
Começa muito antes.
Começa quando deixamos de procurar emprego por impulso e começamos, finalmente, a construir uma carreira com intenção.
Se este texto lhe trouxe mais perguntas do que respostas, talvez seja exatamente esse o momento certo para estar connosco.

